:: Apresentação  
 
 
 
 
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
 
   
Semana Social Arquidiocesana - 2002

Tema: A Contribuição da Doutrina Social da Igreja na Formação e Anúncio de uma Terra Sem Males
Local: Colégio Nossa Senhora do Salete
Dias: 24 a 26 de abril de 2002
Horário: 19:30h

Programa

24/04/02 (quarta-feira)
Abertura: Dom Gílio Felício
Palestra: Aspectos fundamentais da teologia bíblica na elaboração da Doutrina Social da Igreja (Pe. Antonio Joaquim Pereira Neto)

25/04/02 (quinta-feira)
Abertura: Pe. José Carlos Santos Silva
Palestra: A originalidade da Doutrina Social na Tradição Patrística (Pe. Marcos Presciutti)

26/04/02 (sexta-feira)
Abertura: Pe. Arnaldo Lima Dias
Palestra: Os avanços no conteúdo recente da Doutrina Social da Igreja (Pe. Genival B. F. Machado)

Palavras de Dom. Gílio Felício,
Na abertura do programa

Excelentíssimos senhoras e senhores aqui presentes, é com muita alegria que, também em nome de Dom. Geraldo e dom. Walmor, procedo a abertura deste Seminário sobre os pressupostos da doutrina Social da Igreja e os desafios para a dimensão Sócio-transformadora da Ação Pastoral ou ação evangelizadora da Arquidiocese de São Salvador. Seminário promovido pela Ação Social Arquidiocesana - ASA.
Um dos grandes eventos das comemorações dos 450 anos da Igreja Particular de Salvador, foi a instalação da Ação Social Arquidiocesana - ASA - ocorrida nos dias 28 e 29 de abril de 2001.

A importância do acontecimento estava na capacidade da ASA de se tornar, a médio e longo prazo, um órgão de estudos e de ação, abrangendo entre outras finalidades, a articulação, avaliação a animação e orientação das Pastorais sociais e de outros organismos que, na Arquidiocese de Salvador, atuam ou desejam atuar no sentido de garantir mais dignidade humana, que vem da justiça, da paz e do desenvolvimento do homem todo e de todos os homens, conforme a doutrina Social da Igreja Católica, fundada na Bíblia, na Tradição, na Doutrina do Magistério.
Pois este ano que passou, em que pesem grandes obstáculos, muito se fez e a ASA, devidamente registrada, já pode dar passos seguros na promoção e coordenação de atividades de formação, tais como: Seminários, encontros, Semanas Sociais, cursos e outras atividades que, direta ou indiretamente favorecem a cultura da solidariedade na vida e nossa Igreja e de nossa sociedade.

É um trabalho que quer atender a necessidade aguda e urgente revelada, especialmente no grito dos excluídos, que compõe a população de dezenas de milhões de pessoas abaixo do nível da pobreza.
A Diretoria da ASA tem consciência de que não está partindo do nada, mas que está dando continuidade a uma tradição de caridade, que já teve inumeráveis e beneméritas manifestações de fé em Cristo que se tornaram obras em favor dos pobres ao longo dos 450 anos de história de nossa Igreja Particular.
Anima-nos as ousadas e sábias palavras do Papa João Paulo II, que nos convoca para uma incondicional aposta na caridade.

É hora, disse ele (NMI), duma nova "fantasia da caridade", visando não só, nem sobretudo a eficácia dos socorros prestados, mas a capacidade de pensar e ser solidário com quem sofre, de tal modo que o gesto de ajuda seja sentido, não como esmola humilhante, mas como partilha fraterna.

O resultado desta verdadeira cultura da solidariedade permitirá que os pobres se sintam em cada comunidade cristã como "em sua própria casa".
A ASA deverá ajudar nossas comunidades eclesiais a contemplar e servir a Jesus Cristo naqueles com os quais Jesus quis se identificar (MT 25, 35-36: "Tive fome e me deste de comer"...). Aliás, neste texto bíblico, "não menos do que o faz com a vertente da ortodoxia", a Igreja mede sua fidelidade de Esposa de Cristo (NMI).
Convido a todos para que valorizem a ASA, órgão que vem ao encontro de um sonho acalentado pelas lideranças ligadas à dimensão Sócio-transformadora.

UM RESUMO DO DISCURSO SOBRE A DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA
Pe. Genival Machado
"Os avanços no conteúdo recente da Doutrina Social da Igreja" é o tema da terceira apresentação na Semana social Arquidiocesana, que tem como título geral A CONTRIBUIÇÃO DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA NA FORMAÇÃO E ANÚNCIO DE UMA TERRA SEM MALES. Procurar-se-á evidenciar, num primeiro momento, o percurso da Doutrina Social da Igreja no contexto dos tempos modernos, salientando, em seguida a novidade da aplicação da mesma Doutrina nas Igrejas Particulares e na articulação de uma ética mundial.

A Igreja se empenha em um compromisso mais criativo de transformação das estruturas da sociedade. Isto não se deve somente às encíclicas dos Papas, mas ao ensinamento emanado dos Sínodos e à iniciativas dos diversos episcopados nacionais ou continentais. Dois são os desafios que enfrenta a Igreja período contemporâneo: a secularização e a pobreza.

Dentro desse quadro cresce a importância do pronunciamento oficial da Igreja, através das Encíclicas Papais, sobre a vida econômica e social. Embora a Igreja já não tenha mais o papel de presidir o desenvolvimento da vida social, não renuncia tampouco a pronunciar-se oficialmente sobre temas sociais relevantes à vida humana.

É preciso antes de mais nada dizer que existe uma dinamicidade na Doutrina Social da Igreja, isto é, através das diversas encíclicas se vai fazendo uma continua remodelação da doutrina social como conseqüência de uma reflexão da fé sobre uma realidade em permanente mudança. Por causa dessa dinamicidade muitos preferem usar o termo "ensinamento" porque esse é mais fluído e flexível, ao passo que "doutrina" soa como enunciado de princípios estritos. O Concílio Vaticano II evitou o termo "doutrina". Paulo VI fala de ensinamento social como um processo dinâmico, a partir de um ver-julgar-agir, num processo circular, onde a doutrina por certo ocupa um momento importante. João Paulo II voltou a empregar o termo "doutrina", não querendo renunciar ao termo já tradicional na vida da Igreja. Mas continua com a mesma perspectiva metodológica de Paulo VI e em continuidade com o Concílio Vaticano II.

A Sagrada Congregação para a Educação Católica coloca alguns pontos como fazendo parte da natureza da Doutrina Social da Igreja:
1º. A Doutrina Social da Igreja é antes de tudo uma "reflexão moral" feita a partir tanto das ciências quanto das experiências dos cristãos em contato com os problemas de hoje. Mas essa reflexão tem uma orientação eminentemente prática.
2º. Busca fazer um juízo transitório sobre situações concretas a partir de juízos sempre válidos. Nesse sentido a Doutrina Social da Igreja não é um sistema abstrato, fechado e defindido de uma vez por todas, mas dinâmico e aberto.

3º. A Doutrina Social da Igreja faz parte da missão da Igreja, na qual todos estamos comprometidos, cada qual em seu nível. O sujeito da Doutrina Social da Igreja é toda a comunidade cristã, em união com seus pastores.

Características da Doutrina Social da Igreja:
1ª. São documentos históricos, que respondem a situações bem concretas.
2ª. Conteúdo ético, sem querer propor técnicas. É um apelo à conversão.
3ª. Usa disciplinas diferentes da Teologia. O Magistério não faz afirmações dogmáticas, mas fala com autoridade.
4ª. Deve ser colocada em prática com a sensibilidade em relação aos pobres.
Também não são apenas esses documentos que trazem o Ensinamento Social da Igreja. Existem ainda outros documentos: discursos, cartas, alocuções e radiomensagens dos papas que também aprofundam ou complementam o ensinamento que encontramos nesses documentos principais.
"A DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA É O ENCONTRO DA MENSAGEM EVANGÉLICA
COM OS PROBLEMAS QUE EMANAM DA VIDA DA SOCIEDADE".

I- CONCEITO E FINALIDADE
A Doutrina Social da Igreja (D.S.I.) é um conjunto de princípios de reflexão, de critérios de julgamento e diretrizes de ação. O objeto principal desta doutrina social é a dignidade da pessoa humana, imagem de Deus e a defesa de seus direitos inalienáveis.
''É uma formulação acurada dos resultados de uma reflexão atenta sobre as complexas realidades da existência do homem, na sociedade e no contexto internacional, a luz da fé e da tradição eclesial. A sua finalidade principal é interpretar estas realidades, examinando a sua conformidade ou desconformidade com as linhas do ensinamento do Evangelho sobre o homem e sobre a sua vocação terrestre e ao mesmo tempo transcendente; visa, pois, orientar o comportamento cristão. Ela pertence, por conseguinte, não ao domínio da ideologia, mas da teologia e especialmente da teologia moral (SRS, 41).

A D.S.I. é a explicação da regra cristã de fé e costumes às relações sociais. É a explicitação das consequências sociais (e, portanto, econômicas e políticas) da fé cristã. Nasceu do encontro da mensagem evangélica com os problemas que emanam da vida da sociedade.

II- FONTES DA D.S.I.
A D.S.I. se fundamenta na Sagrada Escritura (Antigo e Novo Testamento), no ensinamento dos chamados Padres da Igreja (latinos e orientais), nos grandes teólogos da Igreja, sobretudo os escolásticos e no Magistério, especialmente dos últimos papas.

OBSERVAÇÕES:
O ensino e a difusão da D.S.I. fazem parte da missão evangelizadora da Igreja. E, tratando-se de uma doutrina destinada a orientar o comportamento das pessoas, tem de levar cada uma delas como consequência, ao empenho pela justiça, segundo o papel, a vocação e as circunstâncias pessoais.
A D.S.I. é orientada para a ação e desenvolve-se em função das circunstâncias mutáveis da história. Por isso, embora contenha princípios sempre válidos (elementos permanentes), ela também comporta juízos contingentes (elementos variáveis). É, pois, uma doutrina dinâmica. Longe de constituir um sistema fechado, ela permanece constantemente aberta às questões novas que não cessam de se apresentar; requer a contribuição de todos os carismas, experiências e competências. Ela não inibe a originalidade do pensamento social cristão, porém evita a repetição de experiências amargas e o protege da ingênua pretensão de querer começar tudo de novo. Ela orienta e estimula o discernimento das comunidades cristãs habitadas pelo Espírito que enquadrinha, à luz do Evangelho, os grandes sinais dos tempos.

A D.S.I. utiliza-se dos recursos da sabedoria (filosofia) e das ciências humanas (psicologia, sociologia e medicina), leva em consideração os aspectos técnicos dos problemas, mas sempre para julgá-los do ponto de vista moral.
Os ensinamentos contidos na D.S.I. não têm valor dogmático, salvo quando se reportam a verdades de fé. Isto não reduz sua importância precisamente pelo fato de serem a mediação pela que a igreja explicita as exigências sociais do Evangelho.

III- O QUE NÃO É A D.S.I.
1. Não é um conjunto de receitas práticas para resolver a questão social.
2. Não é um projeto econômico ou político de caráter contingente.
3. Não é uma ideologia nem contém elementos ideológicos
4. Não é uma terceira via entre o capitalismo liberal e o coletivismo marxista, nem sequer uma possível alternativa a outras soluções menos radicalmente contrapostas: ela constitui, por si mesma, uma categoria. Não é, pois, um "modelo alternativo" à semelhança do projeto ou programa de um partido político. Pela mesma razão não propõe a D.S.I. sistema algum particular, mas à luz dos seus princípios fundamentais, permite ver em que medida os sistemas existentes são ou não conformes com as exigências da dignidade humana.

IV- PRINCÍPIOS BÁSICOS DA D.S.I.
1) A dignidade intrínseca e inalienável da pessoa humana. Dignidade que exclui qualquer discriminação racial, social, econômica, religiosa ou cultural. "O homem é o caminho da Igreja" - representa a síntese mais densa do compromisso da Igreja com o homem. É o princípio que marca a distância entre a D.S.I. e todos os sistemas e ideologias de inspiração totalitária de direita ou esquerda; para as quais a pessoa só recebe sentido do coletivo social do qual ela e apenas uma parte descartável.

2) A primazia do bem comum. O princípio se bifurca em dois planos: o nacional e o mundial. O bem comum nacional é a responsabilidade e a própria razão de ser do Estado que pode tudo aquilo e só aquilo que promove o bem e comum , ou seja, o bem de todos, sem discriminações. . Ele é precisamente o conjunto das condições concretas que permitem a todos atingir níveis de vida compatíveis com sua dignidade. - O bem comum em sua dimensão mundial é o bem da comunidade das nações, confiado a uma autoridade supranacional e cujos sujeitos são precisamente os diversos países do mundo. Sua concretização e as condições de sua eficácia são ainda esboçadas, nas grandes organizações supranacionais, sob a tutela da ONU, mas parece constituir o desfecho de uma evolução milenar inscrita na própria natureza social do homem. O bem comum universal será o grande desafio do próximo milênio, para recuperar a implosão do Segundo Mundo e a marginalização do Terceiro Mundo.

3) A destinação universal dos bens. Os bens criados se destinam a todo os homens. A apropriação individual, o chamado direito de propriedade, é uma forma eficaz de realizar melhor esta destinação. A propriedade situada assim a luz deste princípio, é entendida como responsabilidade social e não como privilégio excludente: "Sobre toda a propriedade privada pesa urna hipoteca social" (LE).

4) A primazia do trabalho sobre o capital. "O trabalho é um valor do espírito. O capital um valor da matéria. O trabalho é a própria pessoa humana em ação, ao passo que o capital e apenas o fruto material do trabalho ou de outras formas de aquisição da propriedade. O capital , como forma de apropriação coletiva, pública ou privada, só é legítimo na medida em que serve ao trabalho" (LE). O capital completa o trabalho, mas quando a seu serviço. É um instrumento do trabalho (seja intelectual, seja manual) e jamais tem o direito de fazer do trabalho um meio. Pois o trabalho, sendo a própria expressão ativa da pessoa humana, jamais pode ser um meio. O passo que o capital, sendo apenas a concretização material do trabalho é por natureza um meio e não um fim em si. Este princípio marca a incompatibilidade da D.S.I. com o capitalismo liberal. É importante relembrar o caráter fundamental deste princípio, num momento histórico no qual, com a implosão do socialismo real, um neoliberalismo, já denunciado por João Paulo II na CA, se apresenta com a pretensão de ser a única opção para uma humanidade sem alternativas.

5) O princípio da subsidiaridade. O dever das instâncias superiores é um dever supletivo, de coordenação e promoção da iniciativa e da criatividade das instâncias inferiores. É este princípio a fonte da vitalidade de um número imenso de instituições (sociedades intermediárias), movimentos e iniciativas que são a expressão da maturidade democrática liberta do paternalismo estatal. É também o princípio que oferece os critérios para discernir, na variedade das conjunturas, a solução de problemas tais como centralização e descentralização, nacionalização e privatização.

6) O princípio da solidariedade. É o princípio segundo o qual cada um cresce em valor e dignidade na medida em que investe as suas capacidades e o seu dinamismo na promoção do outro. O princípio vale analogicamente para todas as relações concretas: entre o homem e a mulher, os pais e os filhos, os grupos sociais, os níveis e setores de poder, o capital e o trabalho, o mundo desenvolvido e subdesenvolvido. - Hoje pode-se falar numa descoberta sempre mais lúcida de uma relação de solidariedade entre o homem e a natureza: o homem mais se valoriza na medida em que preserva e promove a natureza, e esta, protegida e preservada, garante melhor qualidade de vida para o homem.

V- A ORIGINALIDADE
Onde reside a originalidade de uma doutrina fundada sobre esses seis pilares? Em dois aspectos que considero essenciais.
Primeiro: Toda a história humana foi a história de uma incansável busca de liberdade e de justiça.

O homem quis ser mais livre das contingências naturais e das violências que o oprimiam. Mas a humanidade fez a trágica experiência de que a conquista da liberdade criou condições para a imposição de uma imensa iniqüidade social. Refiro-me as conseqüências da revolução francesa, da revo1ução industrial e à questão social delas resultante.
A frustração gerada por essa questão social alimentou uma ânsia de justiça expressa em condições de igualdade, que resultou numa imensa opressão da liberdade, especialmente da liberdade religiosa. Refiro-me à revo1ução soviética, ao comunismo internacional, cuja implosão no Leste-europeu assistimos.
A ânsia da liberdade foi pretexto para a injustiça; a busca da justiça foi realizada pelo sacrifício da liberdade.

O primeiro aspecto da originalidade da Doutrina Social da igreja é precisamente este: ela defende o atendimento às radicais exigências da justiça, precisamente através do exercício responsável da liberdade, ela defende a liberdade para atender às exigências da justiça.

Entretanto, o desejo de liberdade e de justiça não é obviamente característica exclusiva da Doutrina Social da Igreja. Muitas outras doutrinas as promovem. Aqui vem assim o segundo aspecto da originalidade da D.S.I.. Fora da Igreja a busca da liberdade com justiça passava pelo ódio. Só a Igreja percebe com toda a clareza que a definitiva conciliação entre as exigências da liberdade e da justiça é uma civilização do amor.
João Paulo II em suas três encíclicas sociais vem marcando a incompatibilidade da Doutrina Social da Igreja tanto com o liberalismo capitalista quanto com o coletivismo marxista. O primeiro, exaltando a liberdade, leva a humanidade a uma exacerbação do consumismo hedonista. O segundo sob a falsa pretensão de resgatar a justiça é responsável pela opressão dos direitos de uma autêntica liberdade. Recupera assim a grande tradição social da Igreja, inaugurada oficialmente por Leão XIII, na encíclica "Rerum Novarum", de 1891.

CONCLUSÃO
Essa doutrina, mesmo incompreendida por muitos, dentro e fora da Igreja, vem se confirmando como a grande mensagem capaz de abrir o caminho para o novo milênio e para uma nova civilização. Depois de tantas injustiças, tantos ódios, tantos sofrimentos, tantas guerras, torna-se cada vez mais claro que só o amor e a solidariedade poderão conciliar os grandes anseios da humanidade: atender as exigências da justiça através do exercício responsável da liberdade. Uma civi1ização do amor e da solidariedade é a proposta da Doutrina Social da Igreja de Leão XIII e João Paulo II. A humanidade já está madura para perceber que a proposta é irrecusável.

A originalidade da Doutrina Social na Tradição Patrística
Pe. Marcos Presciutti

Didaqué - Catecismo dos primeiros cristãos
É uma coletânea de catequese, orientações morais, orações, normas para a vida interna e a missão da Igreja. "Didaqué" que quer dizer ensinamento. Foi escrito na atual Síria, alguns anos depois dos Evangelhos, ainda antes do final do século.

4.5. Não terás as mãos sempre estendidas para receber, retirando-as quando se trata de dar.
6. Se possuíres algo, graças ao trabalho de tuas mãos, dá-o em reparação por teus pecados.
7. Não hesitarás em dar e, dando, não murmurarás, pois algum dia reconhecerás quem é o verdadeiro dispensador da recompensa.
8. Não repilirás o indigente, mas antes repartirás tudo com teu irmão, não considerando nada como teu, pois, se divides os bens da imortalidade, quando mais o deves fazer com os corruptíveis.

12.1. Todo aquele que vem a vós, em nome do Senhor, seja acolhido. Depois de haverdes sondado, sabereis discernir a esquerda da direita (pois tendes juízo).
2. Se o hóspede for transeunte, ajudai-o quanto possível. Não permaneça convosco senão dois ou, se for necessário, três dias.
3. Se quiser estabelecer-se convosco, tendo uma profissão, então trabalhe para o seu sustento.
4. Mas, se ele não tiver profissão, procedei conforme vosso juízo, de modo a não deixar nenhum cristão ocioso entre vós.
5. Se não quiser conformar-se com isto, é um que quer fazer negócios com o cristianismo. Acautelai-vos contra tal gente.

13.1. Todo verdadeiro profeta que quer estabelecer-se entre vós é digno de seu alimento.
2. Do mesmo modo, também o verdadeiro mestre, como o operário, é digno de seu alimento.
3. Por isso, tomarás as primícias de todo os produtos da vindima e da eira, dos bois e das ovelhas e darás aos profetas, pois estes são os vossos grandes sacerdotes.
4. Se vós, porém não tiverdes profeta, dai-o aos pobres.
5. Se tu fizeres pão, toma as primícias e dá-as conforme manda a lei.
6. Do mesmo modo, abrindo uma bilha de vinho ou de óleo, toma as primícias e dá-as aos profetas.
7. E toma as primícias do dinheiro, das vestes e de todas as posses e, segundo o teu juízo, dá-as conforme a lei.

CARTA A DIOGNETO
Um cristão desconhecido do final do século segundo escreve uma carta a Diogneto, um alto funcionário romano no Egito, para dar explicação sobre o comportamento, aparentemente estranho, dos cristãos.

5.Os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por língua ou costumes. Com efeito, não moram em cidades próprias, nem falam língua estranha, nem têm algum modo especial de viver. Sua doutrina não foi inventada por eles, graças ao talento e especulação de homens curiosos, nem professam, como outros, algum ensinamento humano. Pelo contrário, vivendo em cidades gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham um modo de vida social admirável e, sem dúvida, paradoxal. Vivem na sua pátria, mas como forasteiros; participam de tudo como cristãos e suportam tudo como estrangeiros. Toda pátria estrangeira é pátria deles, e cada pátria é estrangeira. Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Põem a mesa em comum, mas não o leito; estão na carne, mas vivem segundo a carne; moram na terra, mas têm sua cidadania no céu; obedecem às leis estabelecidas, mas com a sua vida ultrapassam as leis; amam a todos e são perseguidos por todos; são desconhecidos e, apesar disso, condenados; são mortos e, desse modo, lhes é dada a vida; São pobres, e enriquecem a muitos; carecem de tudo, e têm abundância de tudo; São desprezados e, no desprezo, tornam-se glorificados; são amaldiçoados e, depois, proclamam justos; são injuriados, e bendizem , são maltratados, e honram; fazem o bem, e são punidos como malfeitores; são condenados, e se alegram como se recebessem a vida. Pelos judeus são combatidos como estrangeiros, pelos gregos são perseguidos, e aqueles que os odeiam não saberiam dizer o motivo do ódio.

6. Em poucas palavras, assim como alma está no corpo, assim os cristãos estão no mundo. A alma está espalhada por todas as partes do corpo, e os cristãos estão em todas as cidades do mundo. A alma habita no corpo, mas não procede do corpo; os cristãos habitam no mundo, mas não são do mundo. A alma invisível está contida no corpo invisível, os cristãos são vistos no mundo mas sua religião é invisível. A carne odeia e combate a alma, embora não tenha recebido nenhuma ofensa dela, porque esta a impede de gozar dos prazeres, embora não tenha recebido injustiça dos cristãos, o mundo os odeia, porque estes se opõe aos prazeres. A alma ama a carne e os membros que a odeiam; também os cristãos amam aqueles que os odeiam. A alma está contida no corpo, mas é ela que sustenta o corpo; também os cristãos estão no mundo como numa prisão, mas são eles que sustentam o mundo. A alma imortal habita numa tenda mortal; também os cristãos habitam como estrangeiros em moradas que se corrompem, esperando a incorruptibilidade nos céus. Maltratada em comidas e bebidas, e alma torna-se melhor; também os cristãos, maltratados, a cada dia mais se multiplicam. Tal é o posto que Deus lhes determinou, e não lhes é lícito dele desertar.

CLEMENTE DE ALEXANDRIA - O pedagogo
Nascido em 150. Clemente era um homem de grande cultura, iniciado na arte da filosofia, que coordenava a preparação ao batismo na comunidade de Alexandria, um dos maiores centros intelectuais da época, na virada do século II para o III século.

Deus mesmo levou a humanidade a participar daquilo que é dele. Foi ele que primeiro partilhou e colocou à disposição de todos, como bem comum, seu próprio Filho, o Verbo. Tudo fez para todos. Todas as coisas, portanto, são comuns. Os ricos não podem pretender ter mais que os outros. Alguns dizem: Isto está a minha disposição e tenho de sobra; porque não posso gozar de uma vida de luxo? Isto não é humano, nem próprio de quem vive em sociedade. Pelo contrário, eis o que é conforme à caridade: se isto está à minha disposição por que não posso partilhar com os necessitados? Aquele que pensa e age assim é perfeito, porque cumpre o mandamento: Amaras teu próximo como a ti mesmo (Mt 19,19). Aqui está o verdadeiro prazer e o luxo que acumula os tesouros! Gastar para satisfazer seus vãos desejos não conta como ganho, mas sim como perda. Eu sei que Deus nos deu licença para usar das coisas, mas dentro dos limites do necessário. E ele quer que esse uso seja comum a todos. É absurdo e indecente que um só goze da vida de luxo, quando a maioria está passando necessidade. É muito mais vantajoso prestar grandes serviços a muitos do que morar numa casa luxuosa! É muito mais sensato gastar em favor dos outros do que gastar por pedras preciosas e por ouro! É muito mais vantajoso ter amigos que enfeitam nossa existência, do que possuir enfeites e jóias sem vida! A quem os campos renderão tanto quanto os benefícios feitos aos outros? De que adianta a posse de terras se não se pratica a generosidade?

BASÍLIO - Homilia sobre a avareza
Nascido em 330 de uma família rica Basílio torna-se um grande advogado. Acolhendo o Evangelho abandona a carreira, recebe o batismo e procura os monges da Sina e da Palestina. Voltando para à sua terra é ordenado sacerdote. Organiza a vida monástica comunitária, o cenobitismo. Mais tarde é escolhido para ser Bispo de Cesaréia.
"Com quem sou injusto?', diz o avaro "visto que reservo para mim o que me pertence?'. Dize-me: quais são as coisas que te pertencem? De onde as tirastes para introduzi-las na vida? Assemelhas-te àquele que tendo tomado lugar no teatro, depois quer impedir a entrada dos outros, como se o espetáculo fosse só para ele, ao passo que é feito para que todos possam aproveitar assim são os ricos.
Visto que se apoderam dos bens que são de todos, apropriam-se deles pelo fato de terem sidos os primeiros a apossar-se deles. Se cada qual tomasse só o que é necessário para a suas necessidades e deixasse aos pobres o que lhe é supérfluo não haveria mais nem ricos, nem pobres, nem indigentes. Não saíste nu do seio de tua mãe? Não voltaras, outra vez nu, à terra? De onde ti vêm estes bens que agora possuis? Se responderes: do acaso és um descrente, visto que não conheces o Criador, nem és reconhecido para com aquele que ti deu tudo. E se reconheces que teus bens vêm de Deus explica-nos o motivo de tua fortuna. Será que o injusto é Deus que distribui aos homens os bens da vida de maneira desigual? Por que em quanto tu és rico, aquele é pobre? Será por ventura para que possas conquistar a recompensada tua bondade e das tua honesta gestão dos bens, e aquele possa obter o prêmio prometido à sua paciência? Tu que escondes todas as coisas nas inextricáveis pregas da tua cobiça, subtraído-as a tantos, julgas não cometer nenhuma injustiça? Quem é o homem ávido de dinheiro? Aquele que não se contenta com o necessário. Quem é o ladrão? Aquele que tira o que é do outro. E tu não és um ávido, não és um ladrão?
Os bens que recebeste para distribui-los a todos, tu os açambarcaste. Quem despoja um homem de suas vestes é um assaltante, e quem não veste o nu, podendo fazê-lo, que outro nome merece? Ao faminto pertence o pão que conservas em teus armários, ao descalço pertencem as sandálias que estão mofando em tua casa; ao pobre pertence o dinheiro que guardas. Assim cometes tantas injustiças quantos são os pobres que poderias ajudar!

AMBRÓSIO DE MILÃO - Sobre Nabot
Nasceu em 337. Ainda era catecumeno, estava se preparando para ser batizado, quando foi escolhido para ser bispo de Milão. Foi batízado e ordenado bispo. De família rica, logo após a ordenação, deu seus bens aos pobres e à Igreja.
A história de Nabot aconteceu há muito tempo, mas se renova todos os dias... Nabot não foi o único pobre assassinado: todo dia um Nabot cai ao solo, todo dia um Nabot é assassinado...
Até onde vocês querem chegar, ó ricos, com esta ambição sem medidas? Por acaso, vocês querem ser os únicos habitantes da terra? Por que vocês expulsam aqueles que tem a mesma natureza de vocês? Por que vocês querem possuir sozinhos a posse de toda terra? A terra foi criada como um bem comum para todos: para os ricos e para os pobres. Por que vocês ricos querem para si a posse única da terra? A natureza a todos fez pobres: não conhece ricos. Nascemos sem vestidos, somos gerados sem ouro e prata, nus viemos à luz, necessitamos de alimento, roupas e bebidas. Nus nos recebe a terra e ninguém pode levar para seu túmulo suas posses. Nesta hora um pequeno pedaço de terra é mais do que suficiente tanto para o pobre, quanto para o rico. E a terra que não podia conter o desejo do rico quando em vida agora contém tudo. A natureza ignora as diferenças quando nós nascemos e quando nós morremos. Criou a todos iguais e todos iguais recebe-nos no sepulcro. Quem pode estabelecer classes entre os mortos? ...A terra é de todos, não só dos ricos. Mas os que fazem uso dela são em muito menor numero do que aqueles que não fazem.

JOÃO CRISÓSTOMO - Sermão pronunciado por ter visto, ao passar pela praça, em tempo de inverno, os indigentes e pobres abandonados e caídos por terra.
Nasceu na cidade de Antioquia entre 344 e 354.

...Apressando-me para nossa reunião, ao passar pela praça e por perto de recantos, vi logo nas esquinas muitos deitados, uns de mãos decepadas, sem olhos outros, ou cobertos de chagas e feridas incuráveis, expondo esses males extremos nos membros que seria preciso encobrir totalmente de tão purulentos. Considerei então ser a última das desumanidades não vir conversar sobre eles com vossa caridade e principalmente para vos estimular a respeito. Pois são sempre precisos sermões sobre a misericórdia, já que também nós temos muitas vezes de pedi-la ao Senhor que nos criou. E mais ainda no tempo de agora, tão frio. Pois o verão, tempo mais demente, traz bastante alívio para os pobres. Podem então naturalmente andar nus sem perigo, porque os raios do sol os vestem, dormem no chão nu e, com segurança, passam a noite ao ar livre. Também não lhes são necessários tantos sapatos, nem vinho, nem alimentos abundantes; mas são suficientes as fontes de água, bastam verduras de pior qualidade, um punhado de grãos secos, oferecer-lhes neste período do ano uma mesa improvisada. Ainda neste tempo alívio não menor têm na possibilidade de algum trabalho. Alguns constroem casas, outros cavam a terra; ainda outros navegam pelo mar. Por esses trabalhos obtêm o que mais precisam. Os ricos têm campos, casas e outros recursos; eles, porém, só têm o corpo e todo o ganho que lhes chega pelas mãos; de nenhuma outra parte o esperam. Por isto o verão traz algum socorro e prazer. No inverno, porém, sua luta é mais dura por todos os lados, e duplo o assédio: por dentro, as entranhas devoradas pela fome; por fora, a carne enregelada, tomando-se como morta pelo frio. Por esta razão têm necessidade de mais alimento, de vestes mais quentes e de teto. E ainda de cama de palha, de calçado e de outras coisas mais. E pior que tudo, nenhuma possibilidade de trabalho. O tempo não o permite. Por conseguinte, quando mais precisam do necessário, não podem trabalhar, ninguém os emprega e nem chama os miseráveis para serviços. Neste momento então, em lugar dos empregadores, estenderemos nós mãos compassivas...
...Assim pois também nós, refletindo ser preciso dar ou servir a outros que dão, não descuidemos nem nos acovardemos, se nossos bens ficarem diminuídos.... ...Portanto não sejamos negligentes nesta obra, pois somos, não nós mesmos, de proveito aos pobres, mas nós é que recebemos deles e lucramos no mais alto grau; mais recebemos do que damos...
...socorre a penúria, mata a fome, afasta as tribulações, sem curiosidades indiscretas, porque se realmente quisermos esmiuçar as vidas dos outros, nunca teremos misericórdia por ninguém. Mas travados por esta intempestiva preocupação, permaneceremos sem fruto, incapazes de qualquer ajuda e sobrecarregados de um grande peso tolo e inútil. Recomendo então com empenho rejeitar este cuidado inoportuno e dar todo aos necessitados, e com toda a abundância o façamos, para que também nós naquele dia obtenhamos da parte de Deus imensa misericórdia e amor. Que tudo nos advenha pela graça e amor de nosso Senhor Jesus Cristo a quem com o Pai e o Espírito Santo glória, poder, honra, agora e sempre, pêlos séculos dos séculos. Amém.

 
 
 
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