Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no email

Há 29 anos o mês de julho tornou-se um período de debates e reflexões a respeito do combate contra a opressão de gênero e racismo as mulheres negras . Tendo o seu ápice no dia 25 de julho- Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha,a data surgiu durante o primeiro encontro Mulheres afro-latina-americanas e afro-caribenhas ocorrido na República Dominicana.  No Brasil,em 2014, a Presidenta Dilma  Rousseff estabeleceu que a data também seria de homenagens a Tereza de Benguela,importante líder quilombola brasileira.

Historicamente, a mulher negra está na base da pirâmide social sofrendo duplamente os  preconceitos mais recorrentes na sociedade:O machismo e racismo. Durante a pandemia do COVID19,este grupo foi o que mais sofreu com as consequências negativas causadas pelo vírus. Segundo o Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da FEA-USP(Universidade de São Paulo), antes da crise sanitária, 33% das mulheres negras estavam abaixo da linha da pobreza no Brasil. Mesmo com o auxílio emergencial ofertado pelo Governo Federal em 2021,a porcentagem aumentou para 38%. As desigualdades também se estendem ao ambiente do mercado de trabalho, Segundo dados do IBGE,um pouco mais da metade dos 13,9 milhões de desempregados atualmente no Brasil são mulheres e 60% se declaram negras ou pardas.

É durante a infância, através da estética,que a realidade de ser uma pessoa negra num país racista se apresenta. E foi nesse período,no ambiente escolar,em meio a aprendizados de matemática e português,que a Articuladora das pastorais sociais  da Ação Social Arquidiocesana de Salvador, Jéssica Soares, teve as primeiras lições  dolorosas com o Racismo:” Eu só percebi  que era uma criança negra,quando notei o tratamento diferenciado em relação aos meus colegas brancos na escola”. 

Para celebrarmos o dia 25 de julho, conversamos com Jéssica, que também é estudante de Gênero e Diversidade na Universidade Federal da Bahia, sobre o quanto importante são as discussões provocadas pela data, confira.

Ação Social Arquidiocesana de Salvador– Para Você qual a importância do dia 25 de julho?

Jéssica Soares– Sempre que trazemos questões de gênero e raça, significa que estamos mexendo com as estruturas, que estamos incomodando e questionando alguns privilégios nessa sociedade.Então, é uma data importante para dar visibilidade a essa articulação de muito tempo e também a solidariedade entre mulheres negras de uma maneira  transnacional. Vale ressaltar que, os movimentos de mulheres negras são de extrema importância  para que haja mudanças no mundo e na sociedade

ASA- Em quais circunstâncias você se descobriu uma mulher negra?

JS- Essa descoberta veio a partir do momento que ingressei na escola. Eu fui alfabetizada em casa e o meu núcleo familiar não tinha nenhum tipo de diferença. Quando eu entrei na escola, percebi o que eu era ser uma criança negra a partir do tratamento que eu recebia em relação aos meus colegas brancos. Foi uma questão que me afetou, mas foi na minha família que encontrei  o apoio e fortalecimento da minha identidade como uma criança negra.Enquanto mulher negra,é mais doloroso saber que não é apenas uma questão sua, é uma estrutura da sociedade que nos  colocam em lugares dolorosos e cruéis que podem trazer consequências para vida toda.

ASA- Como foi que você se descobriu feminista Negra?

JS-.Desde a minha adolescência eu sempre fui muito questionadora,me considero uma  problematizadora. Sempre questionei coisas em casa,na escola, e  não entendia  o motivo de colegas minha não fazerem o mesmo.Por conta dessa minha característica, as pessoas me enxergavam como feminista,mas foi apenas em 2012,quando entrei na faculdade, que me percebi como feminista,quando  passei a ter contato com outras feministas, militantes e os conceitos teóricos do feminismo. Nessa caminhada, eu vim entender que as pautas gerais  do feminismo não atendem as pautas das mulheres negras. No meu ponto vista, o feminismo tem que ser plural, foi então que passei a entender que precisava me dedicar muito mais as pautas defendidas pelo feminismo negro.

ASA- Uma das pautas da luta do feminismo negro é a busca por  representatividade em diferentes espaços. Durante a sua vida você sentiu falta disso?

JS- Eu sentia falta de alguém que pudesse me inspirar e poder dizer: Eu vou ser igual a ela. Quando criança sempre tive um sonho de ser uma intelectual , mas pensava que isso poderia ser apenas um sonho meu, impossível de alcançar, já que as minhas ancestrais não tiveram essa oportunidade. Minha mãe e minha avó não conseguiram acessar o ensino superior, então,de uma certa forma,me conformei com isso. Mas através da minha trajetória na igreja e movimentos sociais, percebi que é possível estar nos mais diversos espaços,principalmente os acadêmicos. Entendi que não seria fácil como é para algumas pessoas não negras, mas descobri a existência de mulheres como eu nesse lugar e isso foi o combustível para que pudesse me empenhar e dar forma ao meu sonho de infância.

 

ASA-Quem são as suas inspirações?

JS-Me inspiro em mulheres anônimas e públicas.Enquanto intelectual, me inspiro pela trajetória acadêmica de Djamila Ribeiro. Eu tinha a sensação que tinha entrado tarde na Faculdade,mas fui conhecendo as publicações premiadas dela, que percebi que eu quero ser uma intelectual igual a ela. Minha mãe e minha vó me inspiram..Sempre me ensinaram  a não desistir e acreditar no meu potencial.Outra importante inspiração é Hildete Emanuele, que eu acho uma mulher incrível em diversos aspectos.Também encontro inspiração nas companheiras do dia a dia que fazem a nossa caminhada mais rica e corajosa.

ASA-Para você, o que é ser mulher negra no momento atual?

JS- Ser mulher é travar uma batalha a cada dia e quando adicionamos o fato de ser negra, considero que é travar uma guerra diariamente. Nós,mulheres negras temos muitos rótulos ainda a serem quebrados e coisas a serem vencidas que não dependem só de nós,tudo fruto de uma sociedade machista, patriarcal e racista. É uma dificuldade que chega ser angustiante e adoecedor por muitas vezes,mas eu também sempre vejo esperança nas mulheres que já estão nessa luta e as novas companheiras de batalha.

ASA-Se nesse momento você tivesse diante de uma menina negra, o que você diria a ela?

JS- Pensando nessa menina negra, eu volto lá trás e encontro a menina negra que fui e se pudesse me encontrar com ela e com outras meninas negras eu diria: Acreditem em sí,nós podemos qualquer coisa. Mesmo com dificuldades,podemos ser quem a gente quiser. Reforçaria a autoestima,somos belas e bonitas. Quando não acreditamos em nossa beleza, quando não acreditamos em nosso potencial ,não conseguimos fazer nada. O mundo está querendo nos podar e não deixe que isso aconteça.

Veja Também

ASA participa do 27º Grito dos Excluídos e Excluídas

Crianças e adolescente dão show de consciência no Gritinho 2021

Abertas as inscrições da 18º edição da Semana De Políticas Públicas

Se você tem fé em um Deus que é amor,justiça e verdade, será que esse deus quer ver o povo que nele crer sofrendo injustiças,sem liberdade e sem amor?

Dom Valter Magno participa da primeira Reunião da Coordenação Rede Asa

Pastoral do Menor Realiza Live Formativa